#130 Queime seus barcos
A expressão “queimar os barcos” nasce de um gesto enérgico. Ao chegar a um território desconhecido, certos desbravadores incendiavam as próprias embarcações para eliminar qualquer possibilidade de retorno. A mensagem era simples e brutal: não há volta. Ou se conquista o território, ou se morre tentando.
Esse gesto não tinha nada de romântico. Não era coragem estética. Era decisão sob risco real, tomada quando permanecer como antes se tornara impossível.
Há momentos na vida em que a terra conhecida deixa de oferecer abrigo. Não porque desapareceu, mas porque já não comporta quem você se tornou. A partir daí, a dúvida não é mais se você é capaz. É se você terá coragem de sustentar a consequência da escolha.
Chegar a um lugar habitado pelas próprias incertezas, medos e fragilidades não é sinal de fracasso. É sinal de deslocamento real. E, como sabemos, deslocamentos reais exigem perdas reais.
Eu queimei meus barcos. Deixei um emprego público de quase duas décadas para viver daquilo que sempre soube fazer, mas que jamais havia sido testado como sustento: o texto. Comecei 2025 com medo concreto de virar menina de rua, de não dar conta, de pagar caro demais pela decisão. Não havia garantia, salário, décimo terceiro ou proteção institucional.
O que houve foi trabalho, método, contenção, estratégia e silêncio. Houve medo, sim. Houve noites mal dormidas. Eu, que sou uma eterna preocupada, fiquei ainda mais apreensiva.
Mas houve também crescimento. Ao final do ano, o faturamento foi 89% maior do que o acumulado dos dois anos anteriores. Eu jamais imaginei que algum dia eu conseguiria atingir tal rendimento, mas me movimentei sempre como se eu tivesse a certeza que conseguiria.
Queimar os barcos não é sobre vencer rapidamente. É sobre não se permitir voltar a uma forma de vida que já não serve. É aceitar que a travessia cobra preço alto, mas que a estagnação cobra mais.
É aprender a ficar confortável no desconforto da incerteza.
Nem todo mundo precisa queimar os barcos. Mas quem sabe que precisa, sabe. E não esquece.
Em 2026, queime os seus barcos.

