#128 Complexo de pobreza
Dinheiro, dignidade e o direito de não ser mais humilhado
Em 20 de setembro de 2025, eu publiquei no meu instagram um texto sobre uma passagem específica do filme Máfia da Dor. Decidi trazê-lo de volta aqui, ampliado, porque esse assunto não é “apenas um tema”: ele é um motivo recorrente na minha vida psíquica.
O filme acompanha a trajetória de Liza Drake, e expõe algo que ultrapassa a ficção: a relação entre dinheiro, dignidade e poder social. Durante boa parte do enredo, vemos a personagem ser constantemente subjugada, forçada a aceitar migalhas e humilhações por não ter recursos. Ela é o tipo de pessoa que precisa “se virar” como pode, no limite do corpo, do tempo e da própria dignidade.
Quando muda do trabalho de stripper para a carreira de representante farmacêutica, tudo muda, porque o lugar que ela passa a ocupar no jogo social se altera. Uma frase de Liza ecoa essa transformação, quando ela está escolhendo uma nova escola para sua filha:
“Dinheiro é dignidade. Não ter que implorar por uma chance. Não consigo explicar o que significou finalmente ser uma daquelas pessoas que você não pode envergonhar, chantagear ou passar para trás”.
Esse reconhecimento revela que o dinheiro, mais do que um meio de consumo, pode ser um mecanismo de proteção contra abusos e desigualdades. Somente pessoas que nasceram em famílias pobres — como esta que vos escreve —consegue compreender. Muitos de nós não objetivamos o dinheiro pelo dinheiro ou para alcançar bens de alto consumo; mas para dar fim a conhecidos movimentos de humilhação e dependência.
Entendo que é complicado fazer esse tipo reflexão a partir de uma personagem tão complexa — e até mesmo, criminosa —, mas peço que você a perceba como um recurso visual para uma meditação necessária porque, de uma forma ou de outra, a fala de Liza expõe uma verdade social: em muitas realidades, a falta de recursos não é apenas privação material, mas também um convite à exploração.
Quem não tem dinheiro é mais facilmente envergonhado, chantageado ou descartado. O oposto, como Liza experimenta, é a sensação inédita de finalmente não estar à mercê dos outros.
Quando eu penso no meu desejo de ficar rica — e eu tenho esse desejo forte dentro de mim, quase muscular (alô, Marte em Capricórnio na casa 2) — não estou falando de luxo vazio ou ostentação. O que eu quero encerrar é justamente essa sensação de estar à mercê de terceiros. Dinheiro, pra mim, é menos sobre consumo e mais sobre raio de ação: até onde posso ir, o que posso recusar, que tipo de abuso eu não preciso mais engolir para sobreviver.
A liberdade é um valor tão caro para mim (eu sou escrava da liberdade – alô, ascendente em Sagitário e Lua em Aquário na casa 3) que a limitação de recursos financeiros se torna, bem, uma limitação da própria existência. Não no sentido dramático de “sem dinheiro não há vida”, mas no sentido concreto de ter a vida sempre enquadrada por medo, dependência e constrangimento. Depois de uma vida inteira marcada por ciclos de humilhação e dependência, desejar riqueza deixa de ser ganância e passa a ser vontade de garantir um mínimo de soberania sobre a própria história. É um desejo completamente legítimo para quem sabe, na pele, o que é viver com a dignidade sempre em risco porque falta margem de escolha.
Há um ponto que me atravessa de forma ainda mais íntima: a humilhação crônica não é só um evento externo. Ela vai deixando marcas internas. A gente passa anos se policiando para não ser “ingrata”; se controlando para não “fazer desfeita”; se convencendo de que “é assim mesmo pra quem vem de onde a gente vem”. E, pouco a pouco, uma parte da nossa psiquê vai aprendendo que é perigoso dizer não. Ou é arriscado discordar. Ou, o mais comum: é melhor aceitar o pouco “pra não perder tudo”.
Quando olho pra minha própria história, vejo como esse medo de pobreza é afetivo, quase corporal. É o medo de voltar pra um lugar conhecido demais: aquele em que você sabe que está sendo tratada abaixo da sua dignidade, mas não tem para onde ir.
É por isso que a frase de Liza me pegou tanto:
“ser uma daquelas pessoas que você não pode envergonhar, chantagear ou passar para trás”.
Desejar riqueza, nesse sentido, é uma busca por verdadeira emancipação e dignidade. Quando alguém diz que quer ser rico “para não ser humilhado mais”, está falando de algo profundo: o desejo de não viver na posição vulnerável onde as escolhas são limitadas e a própria humanidade é colocada em dúvida. É sobre, pela primeira vez, desejar um lugar em que minha dignidade não esteja sempre em cima da mesa de negociação.
A fala de Liza transcende o enredo do filme e ressoa como um manifesto silencioso de todos nós que sonhamos não apenas com conforto, mas com respeito. É o manifesto de quem não aguenta mais viver na posição de eterno “agradecido”; não quer mais depender de favores que vêm com grilhões; não aceita que a própria autoconfiança seja eternamente condicionada ao humor de quem paga a conta.
O filme está na @netflixbrasil . Recomendadíssimo!

